Existe uma pergunta que muitos pais e educadores carregam em silêncio: como formar o caráter de uma criança? Não apenas ensiná-la a se comportar bem — mas cultivar nela qualidades que vão durar a vida toda: paciência, integridade, responsabilidade, generosidade.

A resposta, surpreendentemente, não está em sermões nem em regras. Está em momentos simples, partilhados, muitas vezes em formato de brincadeira.


O tempo que estamos perdendo sem perceber

Vivemos um paradoxo. Nunca tivemos tantas formas de nos conectar — e nunca estivemos tão distraídos na presença das pessoas que mais amamos.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicados nas Diretrizes sobre atividade física, comportamento sedentário e sono para crianças menores de 5 anos são claros: crianças menores de 2 anos não devem ter nenhum contato com telas. Entre 2 e 5 anos, o limite recomendado é de, no máximo, uma hora por dia. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reforça essas mesmas diretrizes — e acrescenta que, entre 6 e 10 anos, o uso não deve ultrapassar duas horas diárias.

A realidade, no entanto, é bem diferente. Uma meta-análise citada pela UNIFEV  constatou que menos de um quarto das crianças menores de 2 anos e apenas um terço das crianças entre 2 e 5 anos efetivamente cumprem os tempos máximos sugeridos.

O impacto vai além do tempo perdido. Uma revisão de literatura publicada no Journal of Social Issues and Health Sciences (2025) aponta que o uso excessivo de telas está associado a atrasos no desenvolvimento da linguagem, dificuldades de atenção, impulsividade e comprometimento da regulação emocional.

Pesquisa publicada na Revista Semiárido De Visu aprofunda o diagnóstico: quando as interações presenciais são substituídas por atividades virtuais, as oportunidades de construir vínculos afetivos sólidos se reduzem significativamente — resultando em isolamento social e dificuldades de empatia.

E o mais relevante: esse problema não é só das crianças. É nosso também.


O que a infância está pedindo

Brincar não é passatempo. É a linguagem da infância.

Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (MEC), brincar é uma das atividades mais importantes para o desenvolvimento da identidade e da autonomia das crianças, além de desenvolver habilidades essenciais como atenção, memória, imaginação e capacidade de socialização.

O psicólogo russo Lev Vygotsky, uma das referências mais influentes no campo do desenvolvimento infantil, descreveu o fenômeno com precisão: na brincadeira, "a criança se comporta além do comportamento habitual de sua idade; no brinquedo, é como se ela fosse maior do que é na realidade".

Mais do que uma atividade recreativa, brincar é o meio pelo qual a criança explora o mundo, expressa emoções, aprende a lidar com frustrações, pratica regras de convivência e desenvolve empatia. É onde o caráter começa a se formar — não em teoria, mas na prática cotidiana.


Como valores se ensinam: não no discurso, mas no exemplo e na prática

Pesquisadores e educadores são unânimes em um ponto: crianças aprendem valores pelo exemplo e pela experiência, não pela instrução verbal. A coerência entre o que se diz e o que se faz é a ferramenta mais poderosa da educação parental — e as brincadeiras são um dos espaços mais ricos para essa coerência acontecer.

Paciência se aprende esperando a vez em um jogo de tabuleiro. Responsabilidade aparece quando a criança ajuda a guardar os brinquedos depois da brincadeira. Integridade se desenvolve quando os pais ensinam a seguir as regras de uma atividade, mesmo que não exista ninguém por perto para fiscalizar. Generosidade cresce quando se brinca com outras crianças e se aprende a compartilhar.

O Center on the Developing Child, de Harvard, que estuda o desenvolvimento infantil, concluiu que os estímulos recebidos nos primeiros anos de vida causam impacto direto na vida adulta — na postura profissional, na capacidade de trabalhar em equipe e até no estilo de pai ou mãe que a criança se tornará no futuro. Segundo o estudo, crianças que não recebem estímulo adequado tendem a se tornar adultos com dificuldades de autocontrole e convívio social.


O que os pais também ganham

Há um ângulo dessa conversa que raramente aparece: brincar com os filhos também transforma os adultos.

Pesquisadores do Instituto C observaram que o principal benefício inicial que os pais recebem ao brincar com os filhos é o fortalecimento do vínculo. "As crianças sentem que aquele tempo está sendo dedicado a elas e a algo que elas se interessam, criando memórias afetivas importantes para o desenvolvimento humano", aponta o levantamento.

Do lado da criança, o efeito é ainda mais profundo. Águeda Barreto, especialista sênior em advocacy do ChildFund Brasil, explica: "Ter a figura materna, paterna ou cuidadores de referência na hora das brincadeiras, seja participando da atividade ou apenas com um olhar e toque, já é o suficiente para que as crianças vejam no adulto uma pessoa para quem podem contar as coisas" (VerdadeOn, 2025).

E há mais: o adulto que brinca com o filho se desconecta das telas. Não por esforço de vontade, mas porque o momento exige presença real. Uma brincadeira de 20 minutos no chão com blocos de montar ou uma história inventada juntos produz aquilo que horas de scroll nunca conseguem: conexão.


Atividades simples que ensinam valores

Educar o caráter não exige recursos caros nem metodologias complexas. Exige intenção, consistência e presença.

Algumas práticas que pesquisadores e educadores recomendam:

Para ensinar responsabilidade: pequenas tarefas domésticas adequadas à idade — guardar os brinquedos, ajudar a pôr a mesa, regar uma planta. Mostre que, ao cumprir suas responsabilidades, a criança está contribuindo para o bem-estar de todos na família.

Para ensinar paciência: jogos com vez e turno, como dominó, memória ou jogos de tabuleiro simples. A espera tem regra, tem fim e tem recompensa — é a melhor escola para a tolerância à frustração.

Para ensinar empatia: incentive a criança a ajudar alguém que esteja triste. Na brincadeira, estimule que ela perceba o que o outro está sentindo. Perguntas como "Como você acha que o seu amigo se sentiu quando isso aconteceu?" abrem janelas importantes.

Para ensinar integridade: livros com histórias que apresentem dilemas morais simples são ferramentas poderosas. Narrativas são o meio que as crianças usam naturalmente para processar o que é certo e errado — muito mais do que regras diretas.

Para ensinar cooperação: brincadeiras em grupo onde ganhar depende de todos — e não de um único jogador — ensinam que o sucesso coletivo é mais rico do que o individual.


Crianças Formidáveis: um guia prático para pais e educadores

Foi justamente para oferecer esse repertório de forma organizada e acessível que as educadoras Pam Schiller e Tamera Bryant escreveram Crianças Formidáveis — Como Ensinar os Valores Básicos e as Qualidades que Formam o Caráter a Crianças Pequenas, publicado pela Editora Ground.

O livro reúne atividades, ideias, sugestões e projetos de execução simples para ajudar pais e educadores a promover qualidades como paciência, integridade e responsabilidade em crianças pequenas — não como conceitos abstratos, mas como práticas concretas do cotidiano.

Em 192 páginas, Schiller e Bryant transformam a formação do caráter em algo tangível: algo que acontece na cozinha, no quintal, na hora da história antes de dormir. Algo que não exige roteiro elaborado — apenas intenção e presença.


Uma semente plantada na hora certa

A infância é irrepetível. Os valores que uma criança internaliza nessa fase — por meio do exemplo, da brincadeira, da convivência — vão com ela para a vida adulta. Não como regras memorizadas, mas como parte de quem ela é.

O papel dos pais e educadores não é entregar crianças perfeitas ao mundo. É criar condições para que elas desenvolvam, aos poucos, as qualidades que vão precisar para navegar a vida com mais integridade, mais paciência e mais cuidado com o outro.

E isso começa, muitas vezes, em momentos simples: um jogo, uma história, uma tarde de brincadeira no chão.


Conheça Crianças Formidáveis, de Pam Schiller e Tamera Bryant. Disponível na loja do Grupo Editorial Ground.

👉 Comprar agora